Quinta-feira, 9 de Julho de 2009

O Édipo anterior ao Édipo












Ele violou a luz e a tempestade
numa paisagem inóspita, que
nós até diríamos: grandiosa.
Mais que nada...[Sai da minha frente
que eu quero passar...]. Avassaladora
aterradora, de tão pré-histórica.


Doze léguas a pé, sob a chuva,
na noite sem lua, para se chegar
à primeira aldeia, ou à única
caverna.


Um lobo de guarda, branco,
o acompanha para protegê-lo
defendê-lo das maltas de outros
lobos cães selvagens e coiotes,
das maltas de outros lobos do
imenso chão sem estradas.


Se ele bate palmas,
procurando um eco
ou uma voz humana,
o que se lhe devolve
são uivos-em-chamas
e os ocos do deserto.


Ele matou um homem [como ele,
só que mais velho, bem lá atrás...],
que seu lobo matou, para ambos
comerem. E esse homem era seu
pai.


Nada podia saber nem
nada nem quando nem
nunca.


O problema da verdade
da morte da paternidade
ainda não tivera tempo
para acontecer.


Ele é o Édipo anterior ao
Édipo anterior.


Ele é o Édipo pré-histórico
atrás e antes da história
grega do Édipo de Tebas.


Se ele soubesse o que fizera
talvez furasse os olhos e se
encontrasse, mais à frente,
nos séculos dos séculos com
o sábio Tirésias.


Daí, também, seria vidente,
seguindo a estrada com seu
lobo e dando conselhos
à toda gente.







Marcelo Novaes

Quarta-feira, 8 de Julho de 2009

Saquê














Com trinta e dois goles
de saquê pelo bairro da
Liberdade ["nunca diga trinta
e três"], anda-se com mais
facilidade,


e os poemas caem sobre
qualquer um de nós
como a neve cai
sobre
a flor.


De cerejeira.
No inverno.
Em Tóquio.


De qualquer maneira,
com os trinta e dois
goles correndo nas
veias e artérias
[e, consideremos,
andando sempre a pé,
quase em linha reta],
descobre-se a bênção e
a graça de ser poeta,


as palavras certas
descem, como setas
certeiras
no plexo,


como dardos na memória
a me fazerem lembrar das
cabrochas e gueixas do
Paulistanos da Glória,
gloriosa escola de samba
frequentada por universitários,
empregadas, malandros, pelos
bambas, por mim e pela galera
toda,


sendo eu o único ébrio do local
a estabelecer nexos tão
complexos em nosso
léxico.


Com trinta e dois goles, eu me atrevo,
talvez, a escrever até um romance épico,
ou um dicionário enciclopédico de toda
a cultura oriental.







Marcelo Novaes

Terça-feira, 7 de Julho de 2009

Aristocrática












Teu rosto é longo, esguio,
frágil, como uma pintura
de Modigliani. Também
teu pescoço.


Será que ele sustenta tua
cabeça, e se assenta bem
sobre teus
ombros?


Será que ele sustenta
pensamentos densos,
desses que fazem
pender o tronco
pra frente,


até dos mais resistentes
ao tranco?


Será que esse corpo salta de
paraquedas sem torções ou
torcicolo?


Será que se ajoelha pra
rezar sem aparentar
desdém ou soberba?


Será que você passa [e esse teu pescoço
alto passam, ambos], pelo crivo vermelho
de minha família vermelha [trotskista],
avessa a qualquer vestígio de aristocracia?


[Quem diria que alçaria meus olhos
até esse queixo e essa boca em tão
longo pescoço...].











Marcelo Novaes

Segunda-feira, 6 de Julho de 2009

A canção que embala o pesadelo





Não, não é um pesadelo,

ainda que pareça, mas o
teu patrão não quer pagar o

teu salário,




e te deixará esperando
sentado sem direito a um

chá sequer, ou um café,

até que anoiteça,




quando a secretária
te avisará que ele já
saiu, por uma saída
secreta que ninguém
viu, nem o profeta de
Israel.



E te pedirá [se não for
demasiado indiscreta],
que você converse com
o patrão de ambos, em
um outro dia,



que tente explicar suas razões,
quem sabe, num feriado, ou num
sábado de Aleluia, pelo celular
desligado.



Não, não é um pesadelo,
ainda que pareça, mas teu
cheque [aquele cheque], ainda
não veio não caiu não foi compensado,
o teu chefe tem pouca consciência, jamais
compensaria o dano [e não há como compensar
quando te chega o aviso de despejo pelo atraso
de três aluguéis],



talvez fizesse boletim de ocorrência
numa delegacia, alegando ao delegado
que o talão inteiro havia sido roubado,
para sustar teus ganhos e te assustar
um tanto.



As chantagens são oblíquas,
as insinuações e ameaças
são sutis e torpes como
uma lâmina inclinada.



Ainda que possa parecer um
pesadelo desses que a gente
diz e sente:"aqui estou eu
nessa paisagem nova
-mente", e tente abrir
os olhos,



deu pane no sistema
de informação pela nona
vez em dois meses,



a Telefônica falhou como em tuas
antigas contas e cobranças de inter
-urbano à África do Sul,



como se lá você tivesse cerca de cem
amigos íntimos e queridos e duzentas
amantes, dessas que não largam o
telefone nem para comer
dormir ou para ir
ao banheiro.



Sim, ainda que possa parecer aquele
pesadelo, o velho de sempre, deu pane
no sistema inteiro de informação, sim
deu sim sim deu é a explicação, e teu
nome não consta na lista dos que
teriam algo a receber,
porque a tela apagou
quando se quis
conferir,



"então aguarde o restabelecimento
do sistema",



como daquela vez em que sacaste
o dinheiro [lembra-te daquele
outro e mesmo pesadelo de ante
-anteontem?!], constava que havias
retirado quatrocentos e oitenta em notas
de vinte, à noite, no posto de gasolina.



E constava que já terias o dinheiro
para viajar à Campinas, ainda que
tivesse havido pane pela queda próxima
de um raio um relâmpago, e que as notas
alegadas não saíssem,



e o tal caixa, depois de hora e meia,
retornasse ao início do Windows
marcando
"erro".



Iriam conferir mais tarde se havia
sobrado algum dinheiro, como fora
por ti alegado [e eras, então, suspeito],
mas o agente da agência destinado à
conferição, não encontrou nada
sobrando, nenhuma sobra ou
resto no fundo do prato,
nenhuma nota de vinte,
e seriam vinte e quatro.



A quem apelar no pesadelo velho e
sem apelo e tão singelo: ao delegado
que sustou teu pagamento, pela falsa
alegação de roubo?!



Pode parecer um pesadelo de
Kafka, ainda que seja rotineiro,
e Kafka deveria ser alçado à
condição de profeta deste
século seculorum ad
aeternum



de hoje daqui pra frente até o
fim dos tempos remanescentes,



parece tratar-se de um pesadelo
mas não é,



todos dizem que é só um incômodo
passageiro de quem viaja nesse
trem ligeiro,



um ruído uma falha de sinal um
som de inseto a zumbir no
ouvido inquieto,



um momento casual de
desafinação perfeitamente
contornável, em meio à
funcionalidade vigente,



inquestionável,



nunca um pesadelo [não
pra tanto, deixa disso, rapaz
insano inconformado, moça sem
juízo e mal-adaptada], não se trata
de nada disso, mas um pigarro um trago
mal tragado em um sistema límpido & não
estragado,



uma nota mal deslizada
em meio a um acorde
perfeitamente bem
tocado.



Dá até para assoviar adivinhar
a canção e antecipar a próxima
nota a ser cantada a ser roubada.



Mas não há como acordar.









Marcelo Novaes

Domingo, 5 de Julho de 2009

Novo ângulo do amor














Esse novo ângulo do amor
que achamos há pouco,


esse novo ângulo vai
dançar em ângulos
novos,


vai dançar e se
consumir em chama
rosa verde laranja,


em vela votiva,


até se derramar
em lágrima de
cera.








Marcelo Novaes

Sábado, 4 de Julho de 2009

Capitão





Se eu deixar minha barba
crescer [e hoje ela estará

branca], tingirá de névoa

& neve meus pensamentos

maus,





emoldurará
meu rosto,





tal qual fosse eu
poeta elevado a
novo posto.




E eu parecerei um
Ezra Pound mais
comedido e moço,




com menos vigor
talento e sopro.




Se eu deixar minha barba
crescer [e hoje ela já é
branca-de-neve-e-névoa],
esconderei as cicatrizes
da adolescência [que
ainda persistem],




e envelhecerei

dez
anos mais
ou
menos.




Convenhamos, ainda é

pouco,
para fazer de
mim o porta-voz

oficial
da nau
dos
loucos.













Marcelo Novaes

Sexta-feira, 3 de Julho de 2009

Assíntota














A música ameaçava me doer no
centro do rosto. Mas não era tão
óbvia. A nota aguda me tocou
por detrás, me pegou pelo ombro
esquerdo [coisa que não se faz],
e me fez sentir a dor do que pudera
ter sido. Uma dor itálica, nostálgica,
gravada em negrito. Capaz de partir
ao meio uma
península.


A nota aguda me fez sentir uma dor
sem mímica. Uma dor ístmica, prístina,
assintótica. Dessas que faz um braço de
terra sobrar na água, insólito. Que faz o
pio da ave sobrar na noite e transpassar
um véu de mornas nuvens mornas nuvens
mornas.


A dor aguda que faz os cães ladrarem
como os lobos uivam: um novo-velho
latido [saudade do som que pudera ter
sido, se não domesticados e nossos
melhores amigos].


A dor itálica da nota aguda atravessando,
por detrás, a minha a nossa nuca,
como seta
metálica.


A dor de um barco, frágil, puxado por
tênues fios, de náilon, à melancolia do
fundo de um
lago.






Marcelo Novaes

Quinta-feira, 2 de Julho de 2009

Santa Rosa dos Desertos













Uma cicatriz adorna
seu ombro esquerdo.


Está acesa.


E um arfar de um desejo
seu, por água no céu,
varre os
saaras.


Mãos pálidas e
língua de fogo.


Santa Rosa, Ave Rosa,
este mês já é setembro,
e nos traria rosas,
e enfeitaria nossas
casas,


em noites púrpuras
e tardes
cálidas,


se habitássemos
outras
plagas.







Marcelo Novaes

Terça-feira, 30 de Junho de 2009

Recato













E quem irá dançar essa
parábola?! [O canteiro é
iluminado por uma única
lâmpada].


Diga-se de passagem, ali
é o lugar das náiades.
[Náiades dançam em
canteiros pouco
iluminados].


[Náiades são recatadas].


Náiades prestam atenção aos
detalhes. Aos ônibus cheios de
gente. Às cores das ruas de sempre.
[Àqueles que, andando, não sabem
pra onde].


As náiades prestam atenção no
que bebem os homens. Em seus
cafés e drinks. Em como tocam
os pianos. Quando depõem suas
armas. Quando abdicam de gerar
a morte.


Quem irá dançar a parábola?!
O canteiro é pequeno. [E iluminado
por única lâmpada]. Não pisa nele
quem tem mãos com garras. Não
pisa nele quem não é honrado.


A Náiade faz sua dança
[no] solo.


[E não deixa de ser bela
a solitária valsa].









Marcelo Novaes

Segunda-feira, 29 de Junho de 2009

Corrosão














Isso nos teus pés, hoje, é
ferrugem. E é, ainda que não
fosse. Ainda que nunca tenha
visto [antes] ferrugem em pé
de homem. [E ainda que teus
olhos apontem para a nuvem].


Deve ser ferrugem isso
nos teus
pés.


Digo-o, pela poesia
passadista.


Digo-o por ela [poesia], ainda
quando apontando para urbanas
avenidas


[contemporâneas trilhas],


exercitando-se em forjas e vigas,
ou seguindo trilhos antigos [de trens
mortos] que atravessaram montanhas.


[Rumo aos falecidos portos].


A cor me é estranha [e ainda
mais estranha me é a cor em
base humana], mas isso nos teus
pés só pode ser minério corroído.








Marcelo Novaes

Domingo, 28 de Junho de 2009

A clave













A pedra que riscou teu olho,
te ensinou alguma coisa, ao
menos: a ver as outras pedras
recortadas, deformadas.
[Pedregulhos].


[Quisera recortá-las com teu
olho puro. Mas não: cisco
escuro].


Perdoai a pedra, como Cristo aos
homens. Escrevei como Victor Hugo.
[O mundo é miserável. É sombra e
arenito].


Perdoais as alegorias completas,
que transformam os vilões em mocinhos,
e os monstros em muito bons. [Os muito
bons, em monstros].


Captai a trajetória louca
da lasca de pedra [vinda
de outra boca], como ode
a ti recitada. [A vida só é
nobre na promessa: incubada.
Quem nasce, o faz às pressas].


Perdoai as ofensas dos versos
que mordem maxilares. Da caneta
que, de repente, se quebra [ou te
deixa sem tinta, no meio da frase].


Perdoai o onirismo demasiado do
poeta [ecos de algum Simbolismo?].
E da canção soada, a triste clave.








Marcelo Novaes

Sábado, 27 de Junho de 2009

Antes do nascer do sol













Dói-te este rosto azul de pedra
como talvez te doam as mãos,
que não mais sabem pra que
fazem e por que fazem seus
engenhos: verdes, azuis,
lilases.


Pétreo te tornaste. Amargo.
Aéreo. Azul celeste. Rei de
algum Império que não
compreendo. Nem tu
enxergas ou conheces.


Essas mãos que mal sabem
ainda me tocar, com amor.


Há tempos não me trazes, mais,
presentes. Vives de remoeres o
que antes eu mesma tive. E que
tu não podes ter, nem me dar.


Dói-me esta mão vermelha
em meu pescoço, porque talvez
penses em me matar. Talvez não.
Talvez queiras levar-me à beira da
morte e da morte à beira, para ampliar-te
o gozo, superando a dor e a falta de uma
vida inteira.


Para vingar-te a todos que a mim
me tiveram antes. E de mim roubaram
mais do que hoje tu podes, pois me tiveram
mais jovem e inconsequente - e achas que,
por isso, de mim levaram a melhor parte.
Para ti, inesquecível. Porque não a
conheceste.


“O combate do sexo tem disso”, assim
pensa tua cara ao azul propensa. Inesquecível,
porque irrecuperável. Irreparável, porque, para
ti, para sempre perdida e imaginada: minha
antiga face, por outros beijada e por tantos
outros gozos contorcida.


Dói-te o rosto azul de pedra, porque
não dá mais para ouvir-me, sabendo-me
muito mais feliz com tantos outros, antes
de ti. Mil e quinhentos. Mais entregue. Mais
dada, disponível. Cheirada. Mais roubada em
meu prazer. E no entanto [eu sei como deve
doer-te me ouvir dizer]: satisfeita e grata.


Como nunca voltarei a ser.
Por mais que me encarceres
nesta tua ânsia [azul, de
pedra] pelo meu prazer
de outra época. Das febres e
das noites que nunca voltarei
a ter. Com mais ninguém.


[Contigo, nem com você.
Insistas em ser meu dono,
ou meu melhor amigo.
Intento vão e sem sentido.
Sim, o mundo é cão...].


Quer que a história te faça
Justiça?! Ela não faz nem aos
mártires ou aos artistas. Nem aos
astronautas de marte. O que dirá a
nós, amantes...


Chora, se puderes
- deixa que essa cor se
desvaneça. Derreta essa face,
em azul suor. [Teu caminho é
o do monge...]. E te despeças,
por favor. Eu já me vou. Antes
do nascer do
sol.






Marcelo Novaes