segunda-feira, 5 de março de 2012

O Alvo é o último poema deste blog.












Meus textos não serão publicados, sob nenhuma hipótese. O mercado editorial não me interessa. Quem gostar, translade o que quiser para seus próprios espaços virtuais, imprima, encaderne, o que achar melhor. Em algum momento, o Google apagará o blog. Blogs não são eternos.













Sou grato aos leitores.

O Alvo














Eis a porta, atrás da qual
eu batia meu ponto. Não
há mais porta.


E eu, tentando apontá-la.
E eu tentando colocar tudo
no lugar devido, em tom de
auspício.


O silêncio da madeira
reiterado, e eu sem poder
batê-la. Atravessando-me,
antes de poder
atravessá-la.


[A cicatrização antes
do jorrar do sangue].


Não, não eu. Não eu, retrocedendo
sobre os próprios passos, muito cedo
[ou muito certo] desses passos
retrógrados sobre os anos
pregressos.


[Talvez Outro].


Por falta de porta, perdi o
espanto. Tudo soa tão humano,
em seu pior aspecto.


[Mesmo, da madeira, o silêncio].


São três as cores do alvo: branco,
preto e mais preto. Perfeitamente
adequado. O mais-preto sendo,
agora, o trivial; e o branco, o
seu contorno. [Contrapeso ou
reforço dialético].


Tudo perfeitamente adequado à
simulação do ponto, à simulação do
emprego. Improviso, longe da porta.
Tudo tão metódico, lento e lânguido:
corpo congelado numa foto.


[O corpo, na foto, para
sempre congelado].


O mais-preto emoldurando o
meu melhor momento.


Menores as dimensões do som,
menores os diálogos, porque menos
espessos.


Menos poeira sobre cada coisa,
sobre cada móvel ou tarefa. [Ou
seu avesso]. Tudo puro auspício.


Menor o passeio dos golfinhos
em seu cinza-sem-retorno-ou
-retrocesso , fazendo jus às
cores do alívio.


Menores a vozes que, ontem,
trincavam cristais, ou os dividiam
em pedaços.


Menor a porção de Terra
Desolada, ou o poema.


Se esfrego a terra, dela não
emerge nenhum gênio. [Só a
lembrança do silêncio da
madeira].


Tudo menor agora, e menos
margeado por dúvida ou
alternância.


E eu, aposentado.












Marcelo Novaes

sábado, 3 de março de 2012

Água sobre Água














Os dedos não são mais dedos:
são raios ou fios. Os mesmos fios
que atam o tornozelo.


Caminhar é atravessar o pântano.
Cada fato, pontiagudo ou liso, banhado
em luz e embriaguês azuis.


Prosseguimos diligentes, por azuis
escoltados. O Mysterium se reunindo
ao corpo e à vida comum. Kabir e Rumi
cantando, ao fundo, o Blues.


Livramo-nos da tristeza, neste
coro, cantando a tristeza da
tristeza.


Os dedos não são mais dedos:
são fios azuis ou raios.


Azuis arroxeados das contusões
e cianoses no parto. Nascer quase
roxo, mas cheio de fervor.


Roteiro de minha morte: o mundo
se transmutando em safira, enquanto
fecho os olhos.


Haverá resquícios de azuis nos dedos,
no coro de Kabir e Rumi, no cão caído
de quatro diante do quadro negro.


Há resquícios de azuis no
preâmbulo e no posfácio.
Também no halo [azul] da
prata, nas cordas dos
violões e da
guitarra.


Há resquícios de azuis tão
claros: água derramada sobre
água.












Marcelo Novaes

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Neutro














Sobre o espaço neutro, algo
a ser dito. Mas antes: os rostos
vivos de vespas. A perplexidade.
O choro agoniado de teu pai por
ter de se despedir de algum
amigo.


Espaço neutro e lâmpada
apagada. Mas antes: falha no
interruptor, erro de cálculo
[alguma coisa a ser limada
na tomada].


Espaço neutro. Mas antes:
três lâmpadas acesas. E dez
animais cansados.












Marcelo Novaes

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Cânfora














Cânfora para a respiração. Isso irá
abrir o hálito, o suspiro. Trará luz
ao halo: uma luz de refrescância
[algo próximo do que soa Puro].


Cânfora para a respiração e Três
Canções para o Crucificado. Toda
a minha Oferta por esta tarde, e
nada mais a dar [eu juro], senão
um jejum e o dobrar de joelhos.


Cânfora para a respiração e um
jeito de puxar as contas do rosário
que lembra o Fogo, de tão
concentrado.


[E largo & alastrado].


E que ninguém se distraia
com o meu sorriso. Nem se
eu andar sumido, por um
tempo.


Cânfora para a respiração.
[E considere que estaremos
Juntos].


[Os Três].












Marcelo Novaes

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Vazante














E não era aquela a cor da
lua. Era outra. Cor de canto
mineral ou espessa cor de
rio.


[Espesso rio]. E era alucinada cor e
cor alucinada, metade terra, metade
frio [longo passo e pouso manso de
pantera].


Coronária cor a me vazar,
em direção ao céu.












Marcelo Novaes

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Cativos















Do véu que anda no escuro
[entre o azul e o roxo], trazendo
passos ao corredor do século, não
peço mais que me livrar do
apuro.


Da sala até o quarto, faz-se
cinza-fosco, enquanto contemplo
o relógio rodando para trás:
trezentos anos.


Ela não quer agredir a verdade.
Ela não quer arrancar os mamilos.
Ela não quer atrofiar as árvores, nem
arrancar das cores os seus galhos.


[Ela não quer, deste
apartamento, o forro,
ou o assoalho].


Ela só quer me trazer
aviso: preciso desistir
de cativá-la durante o
sono. [E de me manter
cativo].












Marcelo Novaes

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Metálico














É maquina perfeita e
imaginada esse corpo.
Máquina pra ser contada
e apresentada às outras
máquinas perfeitas
[e sonhadas].


É assim esse corpo [em
seu medo e peso relativos].
Respira pó [e o medo se lhe
adentra como gesso]. Carrega
pó [e arrasta pó pelos
chinelos].


Transpira metal [em cisco
granulado], e seu suor também
é pó e risco. Porque tem medo
a alma que lhe habita [e isso
tira do cabelo o
viço].


Transpira metal [chumbo,
mercúrio, titânio] porque sonha
andar no mundo sem ser títere,
sem ser outra coisa além de se
saber maior que o ponto, a reta,
o plano.












Marcelo Novaes

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Ofertório














O que era só semente
em [rubro] lábio, caiu.


[Caiu em rubro lábio].


Ofertório:
noção incipiente.


Derramar
palavra em
duro solo.












Marcelo Novaes

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Nove Vezes Asas














Embrulha e desembrulha
as coisas, nove
vezes.


Desfaz-se da bagagem
que acolheu, narrando e
vendo, narrando e vendo,
engendrando o próprio verbo,
tocando [com o dedo] a ponta
dos pinheiros.


Canta e lava a boca em
sílabas novas, cada vez
mais novas [nove vezes],
sílabas novas: asas da fala
nascidas.


Depois de cem dias, o
gongo soa [e soa o
gongo]. No ventre:
os rios, as rochas.


Com a ponta do
dedo, acende o
sol.












Marcelo Novaes

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Geometria do Nome















Por dezoito quilômetros,
caminhei sem ver, sequer
um burro.


O silêncio não
me era mais
segredo.


Do círculo intuído [ou
imaginado: meu caminho],
eu conhecia o perímetro.


E o raio do círculo que me
continha [do perímetro, a
metade], continha também
o nome que não esqueceria:
Alcance.


Era isso que me distinguia
de toda a falta de burro, de
tudo que ali não havia:
minha digital, minha
assinatura.


Ainda que secreta ou
sem testemunha.


Por ora.












Marcelo Novaes

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Moonwalker














Eclipses se dão como
solução para o que eu
pretendo.


Ficarei em casa até
junho, até o novilúnio
do próximo ano.


Depois parto.












Marcelo Novaes