Eis a porta, atrás da qual
eu batia meu ponto. Não
há mais porta.
E eu, tentando apontá-la.
E eu tentando colocar tudo
no lugar devido, em tom de
auspício.
O silêncio da madeira
reiterado, e eu sem poder
batê-la. Atravessando-me,
antes de poder
atravessá-la.
[A cicatrização antes
do jorrar do sangue].
Não, não eu. Não eu, retrocedendo
sobre os próprios passos, muito cedo
[ou muito certo] desses passos
retrógrados sobre os anos
pregressos.
[Talvez Outro].
Por falta de porta, perdi o
espanto. Tudo soa tão humano,
em seu pior aspecto.
[Mesmo, da madeira, o silêncio].
São três as cores do alvo: branco,
preto e mais preto. Perfeitamente
adequado. O mais-preto sendo,
agora, o trivial; e o branco, o
seu contorno. [Contrapeso ou
reforço dialético].
Tudo perfeitamente adequado à
simulação do ponto, à simulação do
emprego. Improviso, longe da porta.
Tudo tão metódico, lento e lânguido:
corpo congelado numa foto.
[O corpo, na foto, para
sempre congelado].
O mais-preto emoldurando o
meu melhor momento.
Menores as dimensões do som,
menores os diálogos, porque menos
espessos.
Menos poeira sobre cada coisa,
sobre cada móvel ou tarefa. [Ou
seu avesso]. Tudo puro auspício.
Menor o passeio dos golfinhos
em seu cinza-sem-retorno-ou
-retrocesso , fazendo jus às
cores do alívio.
Menores a vozes que, ontem,
trincavam cristais, ou os dividiam
em pedaços.
Menor a porção de Terra
Desolada, ou o poema.
Se esfrego a terra, dela não
emerge nenhum gênio. [Só a
lembrança do silêncio da
madeira].
Tudo menor agora, e menos
margeado por dúvida ou
alternância.
E eu, aposentado.
Marcelo Novaes