
O que se passa?!
Quando ele se
curva, para limpar a
mesa, raspa a calça
na chave
da gaveta,
na altura
da coxa.
Ela voa.
Ele se
curva
um
o
u
c
o
m
a
i
s
e
p
e
g
a
a
c
h
a
v
e
n
o
c
h
ã
o
.
O curioso,
muito curioso,
é que a chave
permanece na
fechadura.
A que voou
foi uma réplica,
que se configurou
no próprio ato dele
se curvar, e durante
o rasgo.
Como explicar?
Para quem?
O que se passa?!
Ele não tem onde
colocar esta que é
uma outra chave
e é a mesma mes
-míssima chave.
A fechadura já
está ocupada.
Resta carregá
-la. A chave.
Na mão.
O tic-tac
do relógio
passa a in
-comodar,
só então.
Tic-tac. Tic
-tac-tic-tac.
Não há onde colocar,
enfim, esta mesma
chave, senão seguir
com o tic-tac na cabeça.
Fechar o escritório.
Não há como trabalhar
com tantos elementos
estranhos. Ou há?!
Nem como disfarçar
o rasgo na roupa. Ou
há?! O que se passa?!
Lobos passam a uivar
em sua cabeça, pois ele
viu viveu viu viveu viu
muito e demais e muito.
Ninguém viu viveu tanto
somente por agachar um
tanto. Ninguém no mundo
foi pego de surpresa e sus
-to só para limpar o tampo
de uma mesa. Isso é injusto.
Não há como explicar a réplica,
nem como disfarçar o rasgo na roupa.
Terá de se aposentar por justa causa.
Não pode pegar o trem com o rasgo.
Dinheiro para o táxi, ele não tem.
Terá de seguir cento e oito quarteirões,
com lobos uivando enquanto ensaia seus passos
mancos, segurando as contas de um rosário numa
mão desocupada, porque na outra tem de segurar
a chave que ninguém conhece entende ninguém po
-de explicar ou crer. Por isso tem de bater com a cha
-ve em todos os postes para saber que ela é a mesma
que fora ali no vôo ao chão do escritório. A mesma, en
-tão. E reflete enquanto bate a dita maldita cuja que nin
-guém ousa explicar nem ver nem apalpar enquanto pen
-sa sobre o porque de ter usado calça de tecido fino aquele
dia, e não jeans. O tic-tac do relógio do escritório trancado
segue a seguir com ele, o recém-aposentado por invalidez.
As questões candentes cruciais excruciantes passam todas
a ficar claras, transparentes. Isso é claro agora com o tic-tac.
Só agora é claro o quanto é difícil responder a cada coisa em
seu lugar. Cento e oito quarteirões e as pessoas que esperam
os ônibus em seus pontos fixos as prostitutas fazendo ponto
nas ruas, as crianças e mães em seus maus caminhos e bons
caminhos, todos se inquietam com o seu passeio porque faz ba
-rulho. Parece-lhe que lhes parece que ele quer agredir alguém.
O que se passa?! O que ocore é que ele se incomoda mais por segurar uma
chave-fantasma. E num ato súbito e impertinente, incontido, tira a camisa que
está vestindo e rasga-a, ficando com o dorso nu a dor nua o dorso a dor o tronco
nu exposto, exibindo uma tatuagem de cavalo-marinho sobre uma carruagem.
Ele é um louco um lobo que atravessa o burburinho para espanto dos outros tão lúcidos tão certinhos. Poderá chegar ao fim do caminho sem ser atacado por lobo ou por bêbados? O que se passa?! Como pode alguém reunir os amigos do trabalho depois de perder o emprego?! Como pode reunir os que atravessaram o Atlântico, os que se mudaram para outros países estados outros mundos mais sólidos em busca de melhoras ou aumento de salário?! Será que sua ex-namorada que foi ser puta na Espanha ficou presa na alfândega ou foi morta?! Como rever as mulheres dos prostíbulos já fechados e pedir bênção às freiras presas nos pedágios das rodovias, sem dinheiro?!Como voltar a ouvir sábias e cotovias que sumiram por entre as palmeiras?!Como voltar a declamar Castro Alves ou Gonçalves Dias?! Como arranjar novas maneiras de reencontrar sonhos com prazo vencido?!
chave-fantasma. E num ato súbito e impertinente, incontido, tira a camisa que
está vestindo e rasga-a, ficando com o dorso nu a dor nua o dorso a dor o tronco
nu exposto, exibindo uma tatuagem de cavalo-marinho sobre uma carruagem.
Ele é um louco um lobo que atravessa o burburinho para espanto dos outros tão lúcidos tão certinhos. Poderá chegar ao fim do caminho sem ser atacado por lobo ou por bêbados? O que se passa?! Como pode alguém reunir os amigos do trabalho depois de perder o emprego?! Como pode reunir os que atravessaram o Atlântico, os que se mudaram para outros países estados outros mundos mais sólidos em busca de melhoras ou aumento de salário?! Será que sua ex-namorada que foi ser puta na Espanha ficou presa na alfândega ou foi morta?! Como rever as mulheres dos prostíbulos já fechados e pedir bênção às freiras presas nos pedágios das rodovias, sem dinheiro?!Como voltar a ouvir sábias e cotovias que sumiram por entre as palmeiras?!Como voltar a declamar Castro Alves ou Gonçalves Dias?! Como arranjar novas maneiras de reencontrar sonhos com prazo vencido?!
Como alimentar o vício por remédios já não fabricados tarjados, proibidos, sem
viajar?! Como fabricar engenhos novos e achar novos gênios numa geração de
homens médios?! Como destilar água filtrada e pinga-da-boa do mesmo copo de
garapa?! Terá esquecido as luminárias acesas no escritório que irá fechar?! Os
padres entenderão a razão de seu desespero?! O que se passa é que ainda são
setenta e sete quarteirões para seguir em frente e contas de rezas nas mãos, e
postes para bater pra conferir a chave e o som e a verdade que ninguém vê que
ninguém viu nem verá porque não quer não pode não ousa conferir. O que se
passa é que muito se aprende por andar a pé e depressa, e que é melhor chegar
logo em casa e dormir, antes de sucumbir à ameaça que ronda fora e uiva já
dentro, os lobos famintos, os homens incrédulos, aqueles sem visão coragem
capacidade de dar a mão e segurar uma simples chave-fantasma.
Marcelo Novaes



