sábado, 3 de março de 2012

Água sobre Água














Os dedos não são mais dedos:
são raios ou fios. Os mesmos fios
que atam o tornozelo.


Caminhar é atravessar o pântano.
Cada fato, pontiagudo ou liso, banhado
em luz e embriaguês azuis.


Prosseguimos diligentes, por azuis
escoltados. O Mysterium se reunindo
ao corpo e à vida comum. Kabir e Rumi
cantando, ao fundo, o Blues.


Livramo-nos da tristeza, neste
coro, cantando a tristeza da
tristeza.


Os dedos não são mais dedos:
são fios azuis ou raios.


Azuis arroxeados das contusões
e cianoses no parto. Nascer quase
roxo, mas cheio de fervor.


Roteiro de minha morte: o mundo
se transmutando em safira, enquanto
fecho os olhos.


Haverá resquícios de azuis nos dedos,
no coro de Kabir e Rumi, no cão caído
de quatro diante do quadro negro.


Há resquícios de azuis no
preâmbulo e no posfácio.
Também no halo [azul] da
prata, nas cordas dos
violões e da
guitarra.


Há resquícios de azuis tão
claros: água derramada sobre
água.












Marcelo Novaes