quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Caê não cai















Não mais
festivais,
nem praças-da
alegria-alegria.
Nem carnavais,
como aqueles de
antes.


Não mais cirandas,
bandas, nem passeios
ingênuos nas rodas
gigantes.


Agora, é só play-ground,
Play Center e Bungee Jump.
Não mais nadar contra a
corrente, nem voar andar
voar flutuar contra o vento,
sem lenço e sem patente.
Caê já é terceiro-tenente,
aspirante a Coronel
Antonio Bento.


E dizem que não cai.
Dizem que não toma
vaia. Dizem: tomara
-que-caia. Dizem que
ele usou saia, mas não
usa mais.


Dizem que é quase
calmo, quando fala;
mas não gosta de coro,
quando canta no palco.


Caê é índio com cara-pálida:
gosta de carne dura e pele clara.
Ou escura.


Não para de compor, e acha
pérolas raras no mar
de Salvador.


Encontra bolhas e belezas
flutuando no vapor barato,
mama nas tetas das vacas
profanas, e sai ileso. Não
lhe roubam cheque nem
dinheiro. Tem sorte.


Sei que estica a língua até
onde pode, quase fala latim.
Estica e roça na língua dos
grandes autores.


Explode eclode implode
sambódromo e Hollywood.
É sempre a mesma fera, na
voz dos negros do Harlem,
ou de Elza Soares.


Desnuda aponta apresenta
tecnologias da linguagem,
canta pinta e borda som-e
-imagem, na ponta da
língua, nos trejeitos,
no vibrato da voz.


Representa, quando
canta,cenas de trovador
cosmopolita antropofágico
tropicalista hiper-urbano,
evitando clichês, crayon e
giz de cor. Prefere óleo e
acrílico, materiais
duráveis ou
definitivos.


Queria mesmo
era ser escultor.


Caê vai encarar toda
ofensa, defender nos tribunais
o direito de ser estrela, e não
encaretar.


É mau ator, quando se
aventura: paródico, hiperbólico,
parabólico-camará, como outro
cantor baiano, que não sabe atuar.


Mas é primo-irmão de Glauber
Rocha, num parentesco de alma.
E canta bem, em espanhol, num
filme de Almodóvar.


E tudo faz pra ficar odara.
Tomara Deus, mesmo, que
Caê não caia.













Marcelo Novaes