Sábado, 8 de Novembro de 2008

O que não finge dor







Não há essa de fingir, muito ou pouco.
Sendo poeta, burocrata ou louco. As
mentiras nos espelham o fundo. Ainda
que tenhamos pouco. Principalmente nesses
casos. Quando somos palhaços ou ventrílocos.



Eu não me impressiono com perfumes baratos.
Nem com Hugo Boss, ou algo do tipo. Nem com
declarações de amor. Estereótipos. Algumas, eu até
antecipo. Já conheço o script. Já pego de ouvido,
como se tivesse rodado cem mil vezes num gravador.
Antigo e gasto.




Ninguém me veste com essa roupa de faz
-de-conta, que se despe como cinzas num
strip-tease de esquina. Ou purpurina.Não
me impressiono assim. Nem rio, de vergonha,
das tuas mentiras. São frases decoradas nas
ruas, no dia-a-dia. São frases que todos falam,
em coro, até descobrirem suas vozes. Eu espero
ouvir a tua própria, quem sabe um dia. Mas até lá
- saiba você, eu reforço -, não me impressiono, nem
me convenço. Não há essa de fingir. É que o fundo é
pouco, mesmo. É raso e ralo, como os discursos velhos
que todos falam.









Marcelo Novaes

1 comentários:

Mirse disse...

Sem querer, citaste Fernando Pessoa.Mas é verdade. A alma do poeta, é sensível como um cristal, translúcido e experiente. Parece que já nasce com o peso da eternidade, para isto tem uma responsabilidade enorme. Um poeta nunca finge, ele antecipa a dor dos que fingem.

Belíssimo!
Parabéns, Marcelo

Beijos

Mirze

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