Ela pôs a boina verde. Saiu de casa.
Olhou pro céu. E viu uma estrela bem
estruturada. Tênue. Discreta. Religiosa.
Os poetas sabem das coisas. Verdes.
Sabem escolher suas boinas. Sabem
que as estrelas se estruturam a partir
dos amigos que se têm nos sonhos.
Assim superam o que há de irreal
no mundo.
Ela, como poeta estruturadora de céus
e estrelas, abdicava, à toa, do título de
poetisa. Não gostava. Não lhe parecia
verde, mas cinza. Cinza como o peso
das separações [aquelas relações tão
promissoras e extintas], os abandonos
precoces, a antiga desorganização da
aurora – quando apreendia a manhã
como viúva ou órfã.
Mas ela alcançou o equilíbrio, atingiu um
minimum religioso, quando aprendeu a vestir
a boina na cabeça, sem cobrir os olhos. O homem,
sim, era um problema maior do que a fé, maior do
que o vínculo sutil com a estrela.
A propósito, sim, o homem era um problema
maior. Porque não era religioso. E andava nu,
com a mão no bolso.
A poesia verde da poeta de boina verde é mais
do que um acidente: é um presente a nós todos,
ocidentais. Um presente àquele negro que acaba
de ser eleito presidente. É um preito. Ela tem
participação nisso. Pôs seu verbo a serviço da
fundação de um novo templo. Sem sacerdote,
pastor ou ministro. O próximo passo é o
Paraíso. Ou a auto-regulação de seu pró
-prio organismo.
A mulher de boina verde [a poeta da fé e
das estrelas], encontrará a fé em si mesma,
no silêncio de suas vísceras, no silêncio dos
órgãos do corpo, sem entrar em colapso.
Por mais que o homem nu lhe faça um
gesto insinuante - ou acintoso - do alto
de um monte. Ela abaixa a boina,
adensa os olhos e reencontra seus
versos. No chão onde ficaram.
Dispersos. Pela ação dos
homens que se despiram
e suspiraram...
Marcelo Novaes

1 comentários:
DIVINO!!! LINDO!!MARAVILHOSO!!!
Superar o que há de irreal no mundo, há que se ter olhos, alma, e o brio de poeta, que só você tem.
Parabéns, amigo
Beijos
Mirze
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