Há seres que rezam pelos trens, e se sobrepõem
aos sinos, as suas vozes. As suas vozes se sobre
-põem aos sinos. São vozes de eunucos, dos cas
-trati do século XVI. Vozes de meninos que can
-tam bem, como a voz de Ney Matogrosso.
Estranho. Nenhum rosto amigável, apesar do
belo canto. Os sinos são de bronze, não de es
-tanho. Mas não encantariam tanto. E, no en
-tanto, nada encanta. Nenhuma reza pega.
Silêncio.
Lá fora, só se mexem os mastros dos consulados.
Somos seres perversos. Ninguém se preocupa com
o velho soldado louco, contando números em voz
alta: o número dos mortos. Preferia um bando de
leões soltos, sob um sol vermelho. Uma moça faz
um número de equilíbrio sobre um fio elétrico.
Sem blusa. Seu sutiã está no chão, pra recolher
dinheiro. Do outro lado da rua, há um flautista,
com a camisa do Flamengo - Zico -, com um
chapéu de feltro bem à frente, à vista. Pra re
-colher dinheiro de algum turista. Altruísta.
Alguém que o ouça por trinta segundos, apenas.
Qual nada. Esperança leiga, laica, rubro-negra.
Balançam, apenas, nos mastros dos consulados,
as bandeiras.
Marcelo Novaes

1 comentários:
Os seres que rezam sobre trens ou sobre trilhos, se sobrepõem à tudo. Bela construção, pois já alcançamos esses parâmetros fora do mundo poético. O poeta acabou descrevendo o século XXI com precisão. E agora, o caos? Mas é do caos que surgirá a perfeição.
Parabéns, Marcelo
Beijos
Mirze
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