terça-feira, 7 de julho de 2009

Aristocrática












Teu rosto é longo, esguio,
frágil, como uma pintura
de Modigliani. Também
teu pescoço.


Será que ele sustenta tua
cabeça, e se assenta bem
sobre teus
ombros?


Será que ele sustenta
pensamentos densos,
desses que fazem
pender o tronco
pra frente,


até dos mais resistentes
ao tranco?


Será que esse corpo salta de
paraquedas sem torções ou
torcicolo?


Será que se ajoelha pra
rezar sem aparentar
desdém ou soberba?


Será que você passa [e esse teu pescoço
alto passam, ambos], pelo crivo vermelho
de minha família vermelha [trotskista],
avessa a qualquer vestígio de aristocracia?


[Quem diria que alçaria meus olhos
até esse queixo e essa boca em tão
longo pescoço...].











Marcelo Novaes

22 comentários:

CARLA disse...

MAIS UMA VEZ O LIRISMO, O AMOR ENTRE PESSOAS QUE ENFRENTAM RITMOS DE VIDAS DIFERENTES ,REALIDADES DIFERENTES.... ESTE TEXTO NOS REMETE A VARIOS QUESTOES HISTORICAS E SOCIOLOGICAS, LUTA DE CLASSES , IDEIAS DE MARX ,REVOLUÇAO RUSSA, BOLCHEVIQUES ,ETC....

Elaine disse...

Será mesmo que o físico representa toda a potencialidade de uma alma??
será mesmo que podemos nos "esconder" em um copro e não nos atrever a SER??!
Caro amigo esse poema faz pensar e, ser agir executar e seguir!

Mirse disse...

Sempre me impressionou a aristocracia. Assim como essas figuras de pintores famosos, que retratam um longo pescoço, um rosto fino e frio. Forma-se um mundo imaginário, longe do que vivemos. Seu questionamento lírico e cadencial nos leva mais ainda para perto deste enigma.
Muito bonita, a sequência e a cadência poética.

Parabéns, amigo!

Abração

Mirze

Ramon Alcântara disse...

Teu pescoço lhe permite ter vertigens imundanas.


abzzz

Adrianna Coelho disse...


Muito bom, o poema! Aristocrático? :)

Marcelo Novaes disse...

Carla,


Leitura sociológica de meu poemeto.



:)



Thanks.







Beijos,








Marcelo.

Marcelo Novaes disse...

Elaine,


Dê só uma espiada...




Beijos,







Marcelo.

Marcelo Novaes disse...

Mirze,



Com os quadros de Modigliani bem presentes "ao olho mental", né?!







Beijos,







Marcelo.

Marcelo Novaes disse...

Ramon,



Tenho vertigens com pescoço curto.


;)




Obrigado pela visita!





Abração,






Marcelo.

Marcelo Novaes disse...

Dri.



Não. Democrático.





:)






Beijos,








Marcelo.

Enilda Dantas disse...

Esse poema é maravilho, é aquele que cutuca a ferida de quem não quer mostrar, o indivíduo que quer se esconder a traz de uma máscara e não consegue.
" Será que se ajoelha para rezar sem aparentar desdém ou soberba? ". Certamente não consegue esconder a pouse e nem rezar, porque nessas horas tem que ter humildade e pureza de coração.

Beijos amigo!

Enilda Dantas

Marcelo Novaes disse...

Enilda,


Obrigado por captar este ângulo do poema.



;)






Beijos, e obrigado!





Marcelo.

Renata de Aragão Lopes disse...

Que lindo todo o poema...
Em especial, a última estrofe!
Leitura romântica
em uma fria manhã de inverno
de uma quarta-feira qualquer...

Uma dúvida apenas:
"você" foi intencional na penúltima estrofe,
já que escrevia em segunda pessoa?

Um beijo e boa semana!

Marcelo Novaes disse...

Renata,



Eu faço estes jogos de pessoa. Em Rastro, Sagrado Ballet de Flora, O Lugar do Tombo até parte do mecanismo é implicado/explicitado nos jogos de palavras, pra que não soe como desatenção ou incorreção. Vou colar aqui o Sagrado Ballet.




Obrigado, querida!







Beijos,







Marcelo.

Marcelo Novaes disse...

O Sagrado Ballet de Flora







Dança!, como
canta a flauta
doce.



E que te afrouxe
a fala, esta música que
ouves, no encontro da foz
do passo coreografado
que não achas.



Eis que te faltam
pernas! Alguém te
alçará, enfim... Um
fauno! Porque
homem algum
alça bailarina
assim.



Flora,
para ti
não mais a flauta
doce, não mais um
romance, então, mas
a sirínge.



Foi você foste tu quem
chamou chamaste chama
pelas figuras pastoris, sem
sabê-lo.



Chamou chamaste
nua em pelo,pelos
órfãos de Orfeu.



Você descreu da democracia
grega, oligárquica, e também
da nossa. Preferiu preferiste
a Trácia, a Arcádia, a Frígia,
porque és pré-civilizada e não
-urbana, amiga de Hermes, Pã
e dos Silenos. Chamaste chama.



Silenciemos para ouvir teus
passos de novelo, ensaiados
sobre losangos amarelos de
flores; que atrairão novilhos
novinhos aos parapeitos de
nossas janelas; e cabras, que
continuarão teus passos,
pelas ruas incomodadas,
quando tu voltares de
onde
veio.














Marcelo Novaes

Marcelo Novaes disse...

"Quando tu voltares de onde veio"...






Viste?!



;)




Beijos,





Marcelo.

Renata de Aragão Lopes disse...

Bacana!

Sou perfeccionista demais...
Se me servisse deste recurso, faria uma explicação logo abaixo. risos

Marcelo Novaes disse...

Renata,


Hum...


As pessoas acabam aferindo o conjunto da obra, ou largando mão e não conferindo nada mesmo [do tipo: "porra, o cara não sabe nem regências e concordâncias...!"]



;)





Beijos,







Marcelo.

Renata de Aragão Lopes disse...

Tomara que sim! rs

Marcelo Novaes disse...

:)!

Mirse Maria disse...

Este sagrado ballet de Flora é algo de divino.

Chamou chamaste chama e certamente teve a luz que inspirava a dança.

De onde veio Flora? Acredito que não apenas da imaginação poética, mas dos devaneios de quando somos Flora e nem percebemos.

Enfim Belo Poema!

Grande Poeta

Beijos

Mirse

Marcelo Novaes disse...

Mirze,




Só tu pra comentar Sagrado Ballet na postagem "Aristocrática"!



:)








Beijos, amiga.











Marcelo.

Postar um comentário